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Classes de disponibilidade de água para cana-de-açúcar nos principais solos da região centro-sul do Brasil

  • Foto do escritor: Hélio do Prado
    Hélio do Prado
  • 9 de abr.
  • 9 min de leitura

H. do Prado (1); Q. J. Van Lier (2); M.G.A. Landell (1); A.C.M. Vasconcelos (1)



Resumo


Foram propostas cinco classes de disponibilidade de água disponível para as principais classes de solo ocupadas com a cana-de-açúcar na região Centro-Sul do Brasil. Os critérios adotados contemplam as variáveis dos solos (atributos físicos e morfológicos) e do clima (evapotranspiração potencial). Verificou-se que a classe dos Latossolos apresenta limitação de disponibilidade de água para todos valores de disponibilidade de água, que a classe dos Argissolos apresentam média disponibilidade de água somente quando a espessura do horizonte A arenoso não é muito espessa, mas pode ser tão baixa quanto ao Neossolo Quartzarênico quando for da ordem de 100 cm.


Palavra-chave: ambiente de produção, água disponível.


Introdução


A cana-de-açúcar é uma planta semiperene, que possui desenvolvimento radicular muito dependente das condições fisico-hídricas, químicas e morfológicas das camadas superficial e subsuperficial dos diversos solos. Sua produtividade pode reduzir-se significativamente quando ocorre forte limitação hídrica, principalmente entre o quinto e o sexto mês do ciclo de desenvolvimento, quando ocorre a maior demanda por água. Nos primeiros dois anos a produtividade tem menor dependência das condições químicas, físicas e morfológicas do horizonte sub superficial, assumindo maior importância nessa correlação a partir do terceiro corte (LANDELL et al., 2003, no prelo). A disponibilidade de água no solo é um dos fatores que mais interferem no crescimento radicular em profundidade. Em condições de deficit hídrico há redução do crescimento radicular nas camadas mais superficiais devido, principalmente, ao aumento da resistência mecânica do solo seco, enquanto as camadas mais profundas, com o aumento da manutenção da umidade por mais tempo, proporcionam menor resistência à penetração das raízes mais novas (VASCONCELOS, 2002). De acordo com FONTES & OLIVEIRA (1982) no estudo de disponibilidade de água devem ser considerados vários fatores tais como os teores de argila, silte e areia, matéria orgânica e CTC. MANFREDINI et al. (1984) verificaram que o tipo de areia também influi nessa disponibilidade ao estudarem o maior armazenamento hídrico de Latossolos e Neossolos Quartzarênicos com similares teores de argila e matéria orgânica. GROHMANN (1960) verificou a porosidade total próxima de 66% nos horizontes A e B do Latossolo Vermelho férrico textura argilosa, mas de 51% no horizonte A e 48% no horizonte B do Argissolo. Ficou evidente o que os microporos eram relativamente homogêneos no Latossolo (40% no horizonte A e 34% no horizonte B), mas muito contrastantes no Argissolo (13% no horizonte A e 31% no horizonte B). Portanto, o Argissolo, ao contrário do Latossolo, apresenta uma quebra de capilaridade muito nítida, o que está diretamente relacionada com o movimento de água nos horizontes A e B. Outro atributo do solo que não deve ser desprezado é a drenagem interna porque está diretamente relacionada com a permeabilidade e também com o movimento de água no solo. No presente trabalho são propostas novas classes de disponibilidade de água disponível para a cana-de-açúcar considerando, ao mesmo tempo, as condições do clima (evapotranpiração), e dos solos que não possuem restrição de drenagem interna.


Material e métodos


No presente trabalho foram propostas cinco classes de disponibilidade de água para a cultura da cana-de-açúcar, considerando o número de dias que o solo apresenta água disponível em função dos atributos do solo e da evapotranspiração. Formam adotas as tensões de 0,1 ATM para solos de textura arenosa e também arenosa tendendo a média; e 0,33 ATM para solos de textura média e mais fina. O quadro 1 apresenta as diversas classes de disponibilidade de água propostas, considerando, ao mesmo tempo, o volume de água disponível, e as perdas por evapotranspiração. Os solos estudados da região Centro-Sul, classificam-se como Latossolos Vermelhos, Latossolos Vermelho-Amarelos, Latossolos Amarelos, Argissolos Vermelho-Amarelos, Nitossolos Vermelhos, e Neossolos Quartzarênicos segundo a classificação da EMBRAPA (1999). Foram determinadas as curvas de retenção em amostras desses solos pelo Laboratório de Física do Solo do Departamento de Solos e Nutrição de Plantas da ESALQ/USP, Piracicaba.


Quadro 1. Classes de disponibilidade de água e o volume de água disponível (l.m-3) para três níveis de evapotranspiração potencial.


água disponível no solo


(dias/mês)


Classe

Evapotranspiração Potencial

3 mm/dia

5 mm/dia

7 mm/dia

>25

água disponível alta (ADA)

>75

>125

>175

20 - 25

água disponível média (ADM)

60 - 75

100 - 125

140 - 175

15 - 20

água disponível baixa (ADB)

45 - 60

75 - 100

105 - 140

10 - 15

água disponível muito baixa (ADMB)

30 - 45

50 - 75

70 - 105

5 - 10

água disponível excessivamente baixa (ADEB)

15 - 30

25 - 50

35 - 70

< 5

água disponível extremamente baixa (ADEB)

< 15

< 25

< 35


Resultados e discussão


Foram consideradas duas profundidades do sistema radicular: a de 100 cm, numa condição em a cana-de-açúcar não encontra restrição química (o teor de alumínio é nulo ou baixo) ou física (rocha, plintita, petroplintita são ausentes), e a de 50 cm, que corresponde a uma situação onde existem tais restrições a partir dessa menor profundidade. No quadro 2 constam os valores da fração de água disponível no solo (FAD) para as diferentes classes de disponibilidade hídrica e evapotranspiração potencial.


Quadro 2. Fração de água disponível para as profundidades do sistema radicular de 50 cm (FAD50) e 100 cm (FAD100) para diferentes classes de disponibilidade hídrica e três valores de evapotranspiração potencial.

Classe

3 mm/diaa

5 mm/diaa

7 mm/diaa

FAD50

FAD100

FAD50

FAD100

FAD50

FAD100

ADA

> 15,0

> 7,5

>25,0

> 12,5

> 35,0

> 17,5

ADM

12,0 - 15,0

6,0 - 7,5

20,0 - 25,0

10,0 - 12,5

28,0 - 35,0

14,0 - 17,5

ADB

9,0 - 12,0

4,5 - 6,0

15,0 - 20,0

7,5 - 10,0

21,0 - 28,0

10,5 - 14,0

ADMB

6,0 - 9,0

3,0 - 4,5

10,0 - 15,0

5,0 - 7,5

14,0 - 21,0

7,0 - 10,5

ADEB

3,0 - 6,0

1,5 - 3,0

5,0 - 10,0

2,5 - 5,0

7,0 - 14,0

3,5 - 7,0

ADEXB

< 3,0

< 1,5

< 5,0

< 2,5

< 7,0

< 3,5

Os valores de água disponível das diferentes classes de solo são apresentados nos quadros 3 a 6.


Quadro 3. Fração de água disponível dos Argissolos (EMBRAPA, 1999)

Solo

FAD

l/m³

Classes de disponibilidade de água

3 mm

5 mm

7 mm

Local (SP)

3 mm

5 mm

7 mm

PV-1

11,0

110

ADB

ADMB

ADEB

Catanduva

ADA

ADM

ADB

PV-1

13,3

133

ADM

ADMB

ADEB

Bento de Abreu

ADA

ADA

ADB

PV-2

10,0

100

ADB

ADMB

ADEB

Porto Ferreira

ADA

ADM

ADMB

PV-3

6,8

68

ADMB

ADMB

ADEB

Novais

ABM

ADB

ADMB

PV-4

4,0

40

ADEB

ADEXB

ADEXB

Piracicaba

ADMB

ADEB

ADEB

PV1:Argissolo Vermelho-Amarelo eutrófico textura arenosa/média (A: 50 cm).

PV-2: Argissolo Vermelho-Amarelo eutrófico textura argilosa/argilosa.

PV-3: Argissolo Vermelho-Amarelo eutrófico latossólico textura arenosa/média (A:30 cm).

PV4:Argissolo Vermelho-Amarelo eutrófico textura arenosa/média (A: 100 cm).


Quadro 4. Fração de água disponível dos Nitossolos Vermelhos férricos (EMBRAPA 1999).

Solo

FAD

l/m³

Classes de disponibilidade de água

3 mm

5 mm

7 mm

Local (SP)

3 mm

5 mm

7 mm

Nitossolo Vermelho férrico textura argilosa

9,7

97

ADEB

ADMB

ADEB

Porto Ferreira

ADA

ADB

ADMB


Quadro 5. Fração de água disponível dos Latossolos (EMBRAPA, 1999).

Solo

FAD

l/m3

Classes de disponibilidade de água

50 cm de profundidade

Local

100 cm de profundidade

3 mm

5 mm

7 mm

3 mm

5 mm

7 mm

LAa

4,4

44

ADEB

ADEB

ADEXB

Resende (RJ)

ADMB

ADEB

ADEB

LVwf

6,8

68

ADMB

ADEB

ADEXB

Jardinópolis (SP)

ADM

ADMB

ADEB

LVwf

3,9

39

ADEB

ADEB

ADEXB

Guaíra (SP)

ADMB

ADEB

ADEB

LVa-1

5,3

53

ADEB

ADEB

ADEXB

Assis (SP)

ADB

ADMB

ADEB

LVa-2

4,6

46

ADEB

ADEB

ADEXB

Londrina (PR

ADB

ADEB

ADEB

LVdf

5,2

52

ADB

ADMB

ADEB

Pitangueiras (SP)

ADB

ADMB

ADEB

LVa-2

4,9

49

ADMB

ADEB

ADEXB

Pitanga (PR)

ADB

ADEB

ADEB

LVe-1

7,8

78

ADMB

ADEB

ADEB

Catanduva (SP)

ADM

ADMB

ADMB

LVe-2

7,2

72

ADEB

ADEB

ADEB

S.J. Barra (SP)

ADM

ADMB

ADMB

LVa

5,9

59

ADEB

ADEB

ADEXB

J.de Fora (MG)

ADB

ADMB

ADEB

LVwf

6,5

65

ADMB

ADEB

ADEXB

Guaíra (SP)

ADM

ADMB

ADEB

LAd

2,8

28

ADEB

ADEB

ADEXB

Porto Ferreira (SP)

ADEB

ADEB

ADEXB

LAa :Latossolo Amarelo distrófico típico álico textura argilosa, LVwf: latossolo Vermelho acriférrico textura argilosa, LVa-1: Latossolo Vermelho distrófico típico álico textura média, LVa-2: Latossolo Vermelho distrófico típico álico textura muito argilosa, LVdf: Latossolo Vermelho distroférrico textura muito argilosa, LVe-1: Latossolo Vermelho eutrófico textura média, LVef: Latossolo Vermelho eutróférrico textura muito argilosa, LAd: Latossolo Amarelo distrófico textura média.


Quadro 6. Fração de água disponível dos Neossolos Quartzarênicos (EMBRAPA, 1999)

Solo

FAD

l/m³

Classes de disponibilidade de água

3 mm

5 mm

7 mm

Local (SP)

3 mm

5 mm

7 mm

Neossolo Quartzarênico órtico

4,5

45

ADEB

ADEXB

ADEXB

Brasilândia

ADB

ADEB

ADEB


Independemente da condição química subsuperficial (eutrófico, distrófico, álico e ácrico), os Latossolos apresentam algum grau de limitação de disponibilidade de água ao longo do perfil, mas entre os solos argilosos, os ácricos se diferenciam por apresentarem essa maior limitação. Neles, a floculação da argila é das mais elevadas, por isso é mais forte a microagregação. Após a chuva ou irrigação, a infiltração e a percolação de água no perfil é muito mais rápida; por isso, os ácricos são considerados como "os mais ressecados" dos Latossolos. No teste da textura, a "sensação areia" é tão pronunciada que no início subestima-se o teor de argila por causa dessa extrema microagregação, mas a medida que se imprime mais força na massa do solo molhado, começa-se nítidamente sentir maior pegajosidade, refletindo o real teor de argila, que geralmente é próximo de 60%.


Por outro lado, nos Argissolos a quebra de capilaridade entre os horizontes A e B é responsável pela permanência da água por mais tempo. Entretanto, se o horizonte A arenoso for muito espesso (próximo de 100 cm), a cana-de-açúcar beneficia-se pouco da água armazenada no horizonte B textural. Se as condições químicas forem desfavoráveis no horizonte B textural o ambiente de produção de cana-de-açúcar fica ainda mais desfavorável. Os Neossolos Quartzarênicos devido à textura essencialmente arenosa ao longo do perfil, apresentam os menores valores de disponibilidade de água (quadro 6), comparáveis a dos Argissolos com horizonte A arenoso muito espesso (PV4), embora ambos considerados muito distintos pedológicamente (quadro 3).


O solo simbolizado de PV3 (quadro 3) apresenta comportamento hídrico similar a classe dos Latossolos, pois sua morfologia é tipicamente latossólica, exceto o gradiente textural pouco mais elevado do que o exigido na classe dos Latossolos. No horizonte B dos Argissolos mais argilosos (PV-2) dois fatores contribuem para a água disponível ficar por mais tempo no perfil do solo: a estrutura bem desenvolvida do horizonte B textural e a menor permeabilidade motivada pela restrição de drenagem interna (apresentam mosqueamento na profundidade de 100 cm).


O Nitossolo (quadro 4) apresenta valores de disponibilidade de água maiores do que dos Latossolos, e inferiores do que os Argissolos com horizonte A menos espessos (30-60 cm) por apresentarem estrutura típica do horizonte B nítico, que contribuem para armazenar água abaixo do horizonte A. Em todos os casos estudados o valor da evapotranspiração potencial condiciona a interpretação da disponibilidade hídrica, ou seja, para um mesmo solo a interpretação de média disponibilidade de água pode estar relacionada com uma evapotranspiração potencial de 3 mm/dia, mas pode mudar para baixa disponibilidade hídrica quando a evapotraspiração for maior.


OLIVEIRA et al. (1.988) estudando a disponibilidade de água de 15 perfis de Latossolos do Brasil, constataram média disponibilidade em apenas 4 perfis, e baixa nos demais, considerando baixa disponibilidade quando a água disponível for menor que 0,60 mm/cm, média quando variar de 0,61 a 1,23 mm/cm, e alta quando maior que 1,23 mm/cm estabelecidos pelo BUREAU OF RECLAMATION (1953). Aplicando nesses mesmos solos os novos limites propostos das classes de disponibilidade de água do presente trabalho, verifica-se que todos perfis possuem baixa ou muito baixa disponibilidade de água.


Conclusões


  • Os Argissolos estudados que apresentam horizonte A menos espessos e com restrição de drenagem interna disponibilizam água por mais tempo para a cana-de-açúcar e essa informação merece ser contemplada nos ambientes de produção de cana-de-açúcar;

  • Os Nitossolos apresentam valores de disponibilidade de água menores do que os Argissolos acima citados, porém superiores a de todos os Latossolos;

  • Os menores valores de disponibilidade água pertencem aos Neossolos Quartzarênicos que por sua vez são similares aos dos Argissolos com horizonte A muito espesso (da ordem de 100 cm de profundidade);

O enquadramento de disponibilidade de água nas classes propostas variam em função dos valores da evapotranspiração potencial de cada região e em cada período do ano.


Referência bibliográfica


EMBRAPA. CENTRO NACIONAL DE PESQUISA DE SOLOS. Sistema Brasileiro de Classificação. Brasília, 1999. 412 p.

GROHMANN, F. Distribuição de tamanho de poros em tres tipos de solo do Estado de São Paulo. Bragantia, Campinas, 19:319-328, 1960.

MANFREDINI.S; PADOVESE, P.P.; OLIVEIRA, J.B.O. Efeito da composição granulométrica da fração areia no comportamento hídrico de Latossolos e Areias Quartzosas. Revista Brasileira de Ciência do Solo, v.8, p.13, 1984.

OLIVEIRA L.B.; ALMEIDA, J.C.; PAULA, J.L. Water retention in B subhorizons of some Oxisols. In: INTERNATIONAL SOIL CLASSIFICATION WORKSHOP, 8, 1988, Rio de Janeiro. Campinas: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 1988. p.147-149.

VASCONCELOS, A.C.M. Desenvolvimento do sistema radicular e da parte aérea de socas de cana-de-açúcar sob dois sistemas de colheita: crua mecanizada e queimada manual. Jaboticabal, 2002. 140 p. Tese (Doutorado em Produção Vegetal) - Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, UNESP.


(1)Pesquisador Científico do Centro APTA CANA/IAC. Caixa postal 206, Ribeirão Preto, SP, (016) 6372650;

(2) Prof. Doutor, Depto de Física, ESALQ/USP, Piracicaba, SP.


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